Vou te contar…

 

Hoje quero falar sobre a ‘contação de histórias’. Todos somos por natureza criadores e contadores de história, mas, como muitos outros artistas, faço isso também como trabalho. Quando digo que sou uma contadora de história, percebo nas expressões de algumas pessoas, uma reação de desencanto como se essa fosse uma atividade de importância menor e que só educadores e professores, especificamente os de português, deveriam ocupar-se dessa arte. É uma visão bem limitada, pois ao narrar uma história, o contador tem a oportunidade única de proporcionar aos ouvintes momentos de verdadeira fantasia, identificação e análise de sentimentos profundos, recuperação de valores sócio-culturais. Ele lhes passa, de forma dinâmica e envolvente, informações que geram interesses novos, conhecimento e criatividade. Em outras palavras ele estimula em medida humana – e só por isso eficaz – a imaginação dos educandos.
 

      É preciso mergulhar no universo das artes, no fascinante universo do ouvir e contar histórias

É possível perceber claramente que a lembrança de ouvir histórias de quando éramos pequenos está presente nas pessoas que atingiram seus 35, 40 ou 50 anos. Os mais jovens têm referências de memória da televisão e/ou computador que acabaram ocupando espaço do seu imaginário infantil. O legítimo ouvir e contar histórias perdeu-se no tempo. Outros interesses mediáticos e artificiais preencheram o espaço que deveria ser ocupado pelo contador, seja ele o pai, a mãe, o avô ou qualquer outra pessoa. Nossa atividade pois é de resgate social.

Hoje todos os sentidos estão voltados para o externo, para o material, os efeitos especiais, a sobrevivência do corpo, a conquista da fama, o brilho das aparências. Todo o tempo somos sensibilizados e incentivados a isso. Não se exercita a memória das origens, não se cultiva a justificação da existência, nem se facilita o autoconhecimento. Talvez venha daí o sucesso na mídia de tantos programas destinados à abominável observação da vida alheia, onde prima uma luta frenética e tão pouco solidária. Trata-se de um evidente abandono do próprio (uma alienação) que causa um falso esquecimento de nossas verdadeiras angústias, nossas legítimas revoltas e inquietações. Elas não se resolvem, somente se ocultam. A conseqüência é que tudo isso acaba acumulando-se, transbordando e virando um grande bolo que se manifesta depois negativamente através de patologias físicas, emocionais e psicológicas. A sociedade adoece.

É preciso, portanto, mergulhar de novo no universo das artes, no fascinante universo do ouvir e contar histórias. Isto vale principalmente para os adultos que se esqueceram de inebriar-se com a magia e se sentem incapazes de proporcionar encantamento a uma criança, esta sim se constrói num mundo onde tudo é possível… um mundo que deve ser ampliado.

Cada vez que contamos uma história de forma generosa e livre, perpetuamos a existência de seres fantásticos, pois com nossa imaginação e expressão, damos-lhes vida no tempo e no espaço para que se manifestem e encantem nosso mundo…

 

 


 
 

 

 

 

*Claudia Ribeiro é  atriz, contadora de história, produtora, dramaturga e professora.