Polêmico, iconoclasta, sensível e místico, Alejandro Jodorowsky imprimiu na história do cinema uma marca indubitavelmente única. O cineasta chileno não evita o desconforto da provocação aos sentidos e às pré-concepções do público; em sua obra, elementos surreais e chocantes desafiam o apego que temos à realidade e nos obrigam a considerar uma visão completamente diferente do mundo.
Os filmes apresentados na Mostra Alejandro Jodorowsky representam uma parte do trabalho multimidiático e multifacetado do cineasta, que bebe nas fontes dos quadrinhos, do teatro e das influências místicas para compor um quadro de obras indispensáveis aos estudo do cinema mundial. Recentemente disponibilizadas ao público, as obras exibidas ajudam a compreender o papel de Jodorowsky como criador de obras provocadoras e revolucionárias.Fando e Lis, filme de 1968, abre a Mostra indicando que o longa-metragem de estréia do diretor já contém os traços do que o distinguem como artista: polêmico e transformador, o filme teve uma recepção conturbada em suas primeiras exibições. Os dois personagens-título mantém entre si uma relação de dependência física e emocional, repleta de violência e sinergia. Fando e Lis, atravessando uma terra estranha em busca de um lugar idealizado, precisam um do outro e funcionam como um só, um só corpo em processo de auto-destruição e auto-conhecimento.
Em seguida, o filme El Topo retorna à idéia de uma jornada em cujo fim se encontra, idealmente, algum tipo de recompensa espiritual. O personagem principal é um pistoleiro que faz justiça e milagres, proclama-se Deus e pretende dominar uma região marcada por massacres e disputas por poder. Em uma atitude simbolicamente significante para o próprio Jodorowsky e para o conjunto de suas propostas espirituais, o personagem abandona o filho para seguir seu caminho. A crueldade e o amor pelo outro se confundem: é preciso machucar para proteger. Historicamente, El Topo inaugura uma especialidade chamada de "midnight movie", filmes de circuito alternativo exibidos em sessões de madrugada para um público ávido por projeções que desafiem o circuito comercial.
A busca pela transcendência torna a aparecer em The Holy Montain, desta vez com contornos metalinguísticos e uma reflexão a respeito do próprio processo de busca pelo crescimento espiritual. Um grupo de personagens é conduzido por um alquimista interpretado pelo próprio Jodorowsky em uma jornada à montanha sagrada, onde deveriam encontrar entidades altamente espiritualizadas. Durante o processo de preparação da jornada, os personagens devem abandonar suas riquezas e seu apego material, mas apenas para descobrir, ao chegar ao local sagrado, que nada era como imaginavam. Jodorowsky duvida da materialidade e da própria busca por transcendê-la, mas o faz, e é na busca, no processo e no seu desvendar, onde talvez aponte um caminho para a compreensão almejada.Fechando o circuito, La Cravate, cruta-metragem de 1957, apresenta a história de um rapaz que tenta conquistar uma garota. O prosaico argumento da história baseada em texto de Thomas Mann surpreende pelos contornos surrealistas da abordagem: sem sucesso nas tentativas de conquista por flores, o rapaz decide trocar a própria cabeça no mercado para melhor agradar à amada.
Jodorowsky parece não ter medo das polêmicas: em prol da reflexão, lança mão de provocações e alarga a percepção do público em relação aos temas abordados. Interessado na alma e no pensamento humanos, o cineasta/dramaturgo/místico estuda a psicologia e o teatro, o cinema e a espiritualidade como partes de um grande conjunto de pequenos medos e rejeições, desejos e representações empregadas pelo ser humano para se relacionar com algo que o escapa.
Mostra Alejandro Jodorowsky
Dia 30/04 – A Montanha Sagrada (The Holy Mountain, 1973), 114 min + Debate
Dia 01/05 – La Cravate (de 1957), 20 min e Fando e Lis (Fando e Lis, 1968), 93 min + Debate
Dia 02/05 – O Topo (El Topo, 1970), 125 min + Debate
Horário: 19h30
Classificação: 16 anos


