Recomendações

 

Semana passada assisti ao filme nacional ‘Eles não usam Black-tie’. Trata-se de uma obra produzida em 1981 por Leon Hirszman, baseada na peça do mesmo nome, escrita em 1955 por Gianfrancesco Guarnieri e encenada no final daquela década pelo grupo paulista ‘Teatro de Arena’. Ali conta-se a história de um casal de namorados, Tião (Carlos Alberto Riccelli) e Maria (Bete Mendes). Ao saber que irão ter um filho, resolvem se casar. Planejam uma nova vida para o bem da criança, mas um movimento grevista estoura na fábrica onde trabalham. O movimento divide os operários. Pensando no bem-estar do casal, Tião decide furar a greve e continuar trabalhando e, ao fazê-lo, entra em conflito com seu pai Otávio (Gianfrancesco Guarnieri), o líder do movimento, um sindicalista, preso nos tempos do Regime Militar. O filme mostra o dramático contraste entre os personagens. O pai sempre foi solidário com a classe, enquanto o filho não passa de um individualista. Seu único objetivo é subir na vida. Eu já conhecia o texto através do teatro, mas o filme ainda não tinha visto.

Ultimamente ando revendo filmes e procurando ver os clássicos que ainda não conheço. Rever filmes e/ou reler livros, depois de muito tempo, nos proporciona outra visão e despertam novos sentimentos. É um exercício que recomendo. Nossa realidade humana muda constantemente e parece que na maioria das vezes perdemos a consciência dessa mudança. Carece, pois voltar às fontes, para enfrentar de novo certas situações que, estas sim, infelizmente se repetem.

Ao ver ‘Eles não usam Black-tie’ acabei ficando triste! Impossível não compará-lo com nossa atualidade com suas omissões, injustiças e medos. Entre as coisas que mais me chamaram a atenção e emocionaram, está a fala de Romana (Fernanda Montenegro): ‘É preciso reforçar essa porta, se não ela não agüenta’, e a cena, onde Otávio e Romana catam feijão, é muito linda, uma senhora interpretação! Já o comportamento e falas do personagem Jesuino evocam o tal ‘jeitinho brasileiro’, essa insuportável tendência de querer levar vantagem em tudo, de ser o mais esperto, doa a quem doer…

E tudo parece ser tão normal, pior ainda, banal. Há pessoas que não querem se envolver nem discutir, menos ainda buscar soluções. No máximo tecemos críticas, queixas, mas isto não nos leva a nenhuma ação coletiva transformadora. O pensamento geralmente é que o importante é tirar vantagem, ainda que imediata! Ameaça-nos o aquecimento global, mas eu tenho ar condicionado… O preço está realmente exorbitante, mas com o cartão eu posso pagar… E por aí seguem os pensamentos egoístas. Quando vamos ter em mente que ‘noventa e nove não é cem’? A propósito, essa é uma frase de outro filme, um documentário na verdade, chamado ‘Lixo extraordinário’. Também recomendável. É bom ver e rever coisas que nos provocam. 
 


 
 

 

 

 

*Claudia Ribeiro é  atriz, contadora de história, produtora, dramaturga e professora.