O transporte que envergonha

 

 
 
Já escrevi diversas vezes sobre o tema. Mas talvez seja a hora de apertar o discurso, ser menos indireto e não tentar maquiar as palavras: o transporte público de Foz do Iguaçu é, hoje, o pior gargalo urbano da cidade. A maior vergonha para o destino mundialmente conhecido e reconhecido. O maior pesadelo dos cidadãos que necessitam do Sistema para trabalhar, estudar ou somente se locomover. A maior prova da falta de planejamento efetivo do crescimento de nossa cidade, região estratégica da América Latina.
 
O “Novo Sistema”, propagandeado há meses e em funcionamento há alguns dias, é só a ponta da montanha de gelo que flutua por nossos mares. Há anos o transporte da cidade de Foz é considerado caro e ineficiente, carente de fiscalização efetiva e dominado por poucas empresas, as quais, inúmeras vezes, vi alegar a diminuição do número de usuários, ano após ano, como um motivo de prejuízo. Ora, parto de dois princípios: o primeiro é que, oferecendo o serviço visto pela cidade, obviamente o cidadão vai pensar duas vezes antes de entrar em um ônibus e não vai pensar duas vezes antes de comprar um carro. É comprovado que, onde o transporte funciona, as pessoas andam mais de ônibus. O segundo, mais óbvio aliás, é não entender como pode uma empresa operar tanto tempo no vermelho e não querer “largar o osso” de forma alguma. Ou fazem serviço filantrópico para a comunidade? Creio que não.
 
O que vimos nos últimos anos foi o sucateamento da frota e a fusão de linhas, aumentando o tempo de permanência nos pontos e dentro dos veículos, atrapalhando ainda mais a vida de quem depende do (ou opta pelo) transporte para se deslocar. Numa pesquisa feita pelos alunos do curso de Gestão Pública da Universidade Aberta do Brasil, constatou-se um tempo médio de 25 minutos para se conseguir pegar um ônibus em Foz do Iguaçu, mas com respostas que chegaram até a uma hora.
 
As linhas internacionais são absurdamente piores. Além de operaram com carros não só antigos, mas extremamente desconfortáveis e poluidores, não há horário e é comum vermos os motoristas desrespeitando as regras de trânsito e até falando ao celular enquanto dirigem (eu mesmo já presenciei a cena algumas vezes).
 
Esperávamos (eu e todos os moradores) que o Novo Sistema viesse para melhorar todo esse quadro.
 
Pura frustração.
 
As linhas internacionais e metropolitanas não mudaram. As novas linhas municipais ficaram piores, maiores e segmentadoras. Há dias tenho ouvido reclamações por todos os lados. Pessoas alegando caminhar mais de um quilômetro para pegar um ônibus (para um portador de necessidades especiais, isso é um absurdo), pois o “ônibus que passava perto de casa agora não passa mais”. Ouvi moradores alertando sobre o não cumprimento de horários e até de rotas, pessoas relatando carros lotados às dez da manhã e entupidos às seis da tarde.
 
Uma amiga disse que, um dia, o ônibus não passou, em outro, não parou e, no terceiro, estava tão lotado e, quando foi descer, o motorista fechou a porta enquanto seu braço ainda estava dentro do ônibus e, se não fosse pelos gritos dos outros passageiros, teria sido arrastada. Ela ainda tem as marcas no braço direito. Uma cicatriz vergonhosa para a cidade.
 
Há relatos ainda piores. Manifestações, inclusive, foram programadas, mas poucas aconteceram.
 
Fomos informados sobre os novos ônibus, mas ainda vemos os velhos operando no sistema, pintados de verde, apenas. Na foto abaixo, tirada por mim na linha interligando o aeroporto ao centro, nesse domingo, vemos claramente a situação do interior de alguns veículos.
 
E se trata da linha Parque Nacional, utilizada por turistas para ir ao Parque das Aves, Cataratas ou Aeroporto. 
 
Há inspeção dos veículos? Se sim, quais os critérios?
 
Além disso, eu pergunto: onde estão os veículos equipados com ar-condicionado? Pelo preço da passagem e pelas distâncias percorridas, comparando com outras cidades, seria necessário equipar os veículos com aparelhos que garantissem conforto térmico ao usuário. 
 
E os motoristas? 
 
É comum vermos ultrapassagens perigosas, avanços de sinal, altas velocidades, movimentos bruscos em manobras (gerando desconforto e até acidentes no interior dos veículos), imprudência em vias centrais e, principalmente, desrespeito a pedestres, ciclistas e veículos  menores. Os mesmos motoristas vão se aposentar surdos com aquele motor na parte da frente do ônibus. Em poucas cidades ainda é assim. 
 
Outra anomalia é o Sistema de Bilhetagem Eletrônica. 
 
O que era para ser uma solução, virou um problema jurídico e social. Eu não acho justo pagar R$ 2,40 porque esqueci meu cartão em casa. E não acho justo obrigar as pessoas a fazer o cartão. O serviço prestado é o mesmo para todos e o preço deve ser o mesmo. Nos casos de diferenciação, como para estudantes, as regras também são absurdas. A limitação de horário para utilizar o benefício vai contra o direito de ir e vir. 
 
A Universidade Federal, a Unila, por exemplo, terá um PET (Programa Especial de Treinamento), com atividades no contra turno. Ou seja, o aluno bolsista do Programa terá de pagar a passagem integral para participar das atividades de Pesquisa e Extensão da universidade, benéficas a toda a  comunidade, simplesmente porque o Único (empresa que gerencia a bilhetagem) é quem decide em qual horário seu direito é valido. 
 
 
Amigo leitor, a conta é simples: passagem = custo + lucro. Se o transporte público fosse realmente público (e não privado) a conta seria passagem = custo. E, ou o transporte ficaria igual e bem mais barato, ou ficaria com o mesmo preço e bem melhor. 
 
Empresa privada operando serviço público básico significa serviço ou muito ruim ou muito caro.
 
Em Foz, significa as duas coisas. 
 
Empresa visa lucro. Empresa tem de ser mercado, loja de roupa, etc. Transporte público tem de ser público. Se houver privado, como na medicina ou no sistema bancário, deve concorrer com o serviço público e este deve ser um direito, enquanto aquele uma opção. Há bons exemplos pelo Brasil. 
 
Eu ficaria dia e noite escrevendo para relatar todas as discrepâncias do Transporte Público de Foz. E não culpo apenas o “Novo Sistema”, que só chamou mais nossa atenção para esse problema, fruto de anos de descaso e favorecimento de meia dúzia de empresários em detrimento da população. 
 
Mas é preciso deixar claro: o transporte público é o primeiro passo para a consolidação do desenvolvimento sustentável da cidade. O ônibus traz um índice de poluição baixo, transporta dezenas de pessoas de uma só vez e ajuda a desafogar o tráfego nos horários de pico. Além disso, o ônibus transporta turistas e o turismo representa nossa maior fonte de renda e divisas. 
 
Ou a gente discute o assunto seriamente ou vamos, como já falei inúmeras vezes, continuar sendo uma cidade de mente pequena. 
 
 

 
 

** Luiz Henrique Dias é escritor. Para ler mais, acesse www.blogdoluiz.com.br ou siga ele no twitter: @luizhdias.