O Terreno Baldio e o Ladrão

Segunda-feira. Eu acabava de ultrapassar a Barreira da Usina de Itaipu, indo em direção ao PTI, onde participaria de uma reunião de trabalho, quando, por telefone, recebi a notícia de que meu pequeno apartamento havia sido invadido e minha namorada – e também minha revisora nesta coluna e em todos os meus textos -, Gabriela, havia sido trancada no banheiro enquanto o bandido levou objetos, equipamentos eletrônicos e um pouco de dinheiro. E tudo isso às 15h, a poucos metros de minha escola, Lupah!, onde pelo menos 15 pessoas trabalhavam ou estudavam.
 

No prédio, temos monitoramento de alarme, portão eletrônico e todos os outros aparatos que esta sociedade capitalista excludente (de uns) nos obriga a ter.

Ao fundo, grades, arames, etc. O único lugar vulnerável – e por onde o bandido entrou no prédio – é um trecho de muro com aproximadamente quatro metros de extensão, que faz divisa com um terreno desocupado.

O imóvel, abandonado há alguns meses, teve sua construção – uma casa – demolida parcialmente e, desde então, vem sendo um refúgio para usuários de crack e marginais de diversas espécies.

Trata-se de um terreno completamente irregular: mato alto, muito lixo, focos de dengue e calçada inexistente (estou falando em Centro da Cidade). Pelas fotos, uma da frente e outra tirada de dentro, dá para perceber o nível da irregularidade e a falta de fiscalização do poder público.

Este incidente (pelo qual fui diretamente vitimado) chama a atenção para o problema dos terrenos vazios em áreas centrais de Foz do Iguaçu.

Diversos casos são famosos, como aquelas aberrações urbanas, verdadeiros latifúndios, ao lado do Terminal de Transporte Urbano (TTU) ou das áreas especulativas, de engorda, na região do Fórum.

A relação desses imóveis com parte significativa do atraso no desenvolvimento da cidade é negada apenas por seus donos.

Outros casos, não tão gritantes, como o terreno que o ladrão utilizou para invadir minha casa, passam despercebidos pelo poder público, que, geralmente, só age quando esses problemas acontecem.

Além de constituírem um refúgio a criminosos, essas áreas respondem pela baixa oferta de moradias na áreas centrais e do entorno, forçando o aumento do preço dos imóveis e dos aluguéis e obrigando a cidade a crescer, cada vez mais, na direção de seus atuais limites (e ultrapassá-los).

Este movimento de pessoas rumo aos limites urbanos prejudica a cidade como um todo.

Enquanto áreas centrais contam com toda a estrutura (asfalto, luz, esgoto, etc), que acaba ficando subutilizada, nota-se a necessidade de o Estado levar tal estrutura para regiões cada vez mais distantes, pois a população, principalmente a trabalhadora, só consegue moradia longe dos pontos onde os serviços públicos estão consolidados, enquanto os “donos” dos terrenões centrais aguardam a pressão imobiliária para ganhar mais e mais dinheiro.

Não se trata de desrespeitar a propriedade privada, mas de pensar no bem da cidade.

A Constituição Federal prevê o IPTU progressivo para essas áreas, o que obrigaria o proprietário a dar um uso ao solo. Basta regulamentarmos o mecanismo e aplicarmos.

É uma conjunção de fatores que gera a violência, pois nossa sociedade é deveras complexa, mas, sem dúvida, a especulação urbana é grave e contribui muito para a deterioração das relações.

É preciso fazer um debate consistente com todos os setores da cidade e mostrar os benefícios de ocuparmos essas áreas em vez de levarmos a cidade para cada vez mais longe do Centro.

Até lá, nós, moradores do entorno desses terrenos, seremos obrigados a conviver com sujeira, focos de doenças, bandidos e, como aconteceu comigo, a colocarmos uma cerca elétrica.

Estamos trancafiados em nossas próprias casas.

 

 


 

 
*Luiz Henrique Dias é dramaturgo, diretor da Cia Experiencial O Teatro do Excluído, Coordenador da Lupah! e estudante de Administração Pública. Acesse luizhenriquedias.com.br ou siga ele lá no Twitter: @LuizHDias