O seu direito versus o direito dos outros

 

 

Eu moro no Centro, um lugar com mais barulho que a média dos bairros da cidade. Quando vim morar aqui, já sabia disso, mas optei pelo conforto de estar perto do trabalho. Mas desde o primeiro sábado em meu apartamento, descobri o quanto a falta de consideração com os outros cidadãos é assustadora: eu moro atrás de uma igreja evangélica.

Já morei no Centro de Porto Alegre, um dos lugares mais bagunçados e desorganizados que a sociedade brasileira já produziu. Já morei no Centro de Curitiba, talvez um dos melhores centros de cidade do país. Agora, moro no Centro de minha cidade, onde trabalho e, durante os finais de semana, leio e escrevo um pouco. Só que meu apartamento faz fundo com uma igreja de fachada verde, localizada na Rua Santos Dumont, entre a Rui Barbosa e a Bartolomeu de Gusmão. Nesta igreja acontecem cultos, principalmente nos finais de semana, como em todas as igrejas espalhadas pela cidade. Mas essa, em particular, tem um problema sério: não há isolamento acústico e o rapaz que toca bateria na banda da igreja é bom de braço e ainda usa um microfone pra expandir seu poder de adoração e atazanar toda a vizinhança.

Sábados, pela manhã, a banda ensaia. À noite, manda a ver durante o culto e eu, para ler um pouco, tenho de sair de casa. Já apareci lá e pedi para que ao menos tirassem o microfone da bateria, pois a vizinhança era capaz de conter o resto do ruído fechando as janelas (nesse calor!), mas não adiantou. Domingo cedo, o mesmo problema.

Resolvi ligar para a polícia.

A PM disse que não atendia a casos assim.

Tentei a Guarda-Municipal.

Nas primeiras tentativas, não fui atendido. Ouvi dizerem: “você sabe como é, igreja incomoda, mas é complicado ir lá. Vão acusar a gente de perseguição”. Mas não desisti. No outro final de semana, insisti e a Guarda-Municipal enviou uma viatura, com a condição de que eu fosse até o local dar parte. Fui, é claro. Chegando lá, entrei na igreja acompanhado de dois guardas-municipais. Um deles pediu para falar com o pastor ou alguém responsável.

Uma mulher, uma pastora, que foi doce e educada. Disse ser o final de semana de aniversário da igreja a justificativa para o barulho. Mentira. O barulho era normal em todos os dias. Contestei e ela, docemente, explicou que a bateria não usava microfone. Mentira novamente. O guarda-municipal, em um ato de prestação de serviço civil, orientou sobre a necessidade de um isolamento acústico. Ela, novamente com uma doçura sem igual, disse que a igreja estava se mudando do local em breve e, por isso, não haviam feito a adaptação acústica. Afirmação duvidosa, uma vez que, naquele exato momento, um senhor pintava a fachada do local. Por fim, ela se comprometeu a cessar o barulho às 22h aos sábados e tirar o microfone da bateria.

 

Os guardas ainda me perguntaram se era necessário apreender os equipamentos e eu, apesar da sequência de mentiras, confiei nas palavras e considerei o assunto momentaneamente encerrado. Voltei para casa e, conforme o combinado, às 22h o barulho parou.

Mas foi só por uma semana. Hoje, sábado, escrevo esta coluna ao som gospel da banda da igreja verde da Santos Dumonto e ao ritmo do bumbo da bateria.

Apesar de não participar de igreja nenhuma, respeito todo tipo de manifestação de fé ou de cultura e acredito na liberdade universal do indivíduo. E defendo isso. Mas também acredito no direito de existir em paz. E esse é sagrado. Tão sagrado quanto o Deus cultuado.  

 

 

 
 

 

** Luiz Henrique Dias é escritor, trabalhador e gosta de descansar em sua casa nos finais de semana. Leia mais em www.blogdoluiz.com.br ou siga ele no twitter @luizhdias.