Basta dar uma volta pela cidade pra perceber como as pessoas, nem tanto por mal, mas por cultura, tem tomado para si o espaço público, anexando-o ao privado, ao individual. E isso é o pior efeito colateral dessa sociedade criada por nós.
O senso comum brada, com tom agressivo inclusive: devemos respeitar a propriedade privada!
Mas, os mesmo que enchem a boca de palavras contra qualquer tipo de investida quanto ao direito de propriedade são, muitas vezes, os primeiros a fazerem uso do bem público para fins particulares. Desrespeitando o direito de todos em troca de seu próprio benefício.
Posso dar exemplos.
| Foto: Luiz Henrique Dias |
| A adaptação é tão “profissional” que, uma boa olhada na foto, revela ao leitor a estrutura metálica perfeitamente encaixada, como se tivesse sido feita (e pelo visto foi) para tal fim |
Há, na Almirante Barroso, um vendedor de lanches que instalou um toldo na calçada. O tal toldo é retrátil e, durante o dia, fica quase imperceptível aos passantes. Basta o sol se pôr para o famigerado dono da lanchonete puxar o artefato e cobrir metade da calçada contra as intempéries, além de espalhar suas mesas e banquinhos, atrapalhando a passagem de pedestres.
Ainda no campo “lanches”, a novidade foi a colocação, na Rua Santos Dumont, de uma tabela de preços em uma placa de trânsito, fixada na calçada. A adaptação é tão “profissional” que, uma boa olhada na foto, revela ao leitor a estrutura metálica perfeitamente encaixada, como se tivesse sido feita (e pelo visto foi) para tal fim. Sem falar na lixeira pendurada na placa e as mesas, obstruindo parte da calçada.
E não é preciso ir longe.
Na própria Rua Santos Dumont, próximo à República Argentina, ao final da tarde, é possível se perceber um aglomerado de ônibus do Transporte Coletivo, todos verdinhos e estilizados, estacionados por todo um quarteirão. Pelo jeito, dentro da garagem da empresa não há mais espaço e ela (a empresa) não se importa em ocupar todas as vagas disponíveis para estacionamento e deixar por lá seus veículos. Estes, aliás, maiores, em comprimento e largura, que os limites das vagas pintadas na rua.
Eu poderia ficar aqui, parágrafos e mais parágrafos, citando exemplos. Mas vou deixar que os nobres leitores, com seus conhecimentos sobre a cidade, e certa imaginação, se lembrem de todas as aberrações do gênero espalhadas por aí.
O que é preciso deixar claro, para essas pessoas e para tantas outras, qual é a função da cidade: oferecer ao morador condições dignas de convívio social. Isso significa ter direitos e respeitar direitos. Significa, também, respeitar espaços. Significa, por fim, entender o conceito de cidadania como existência coletiva.
Nossa sociedade inventou o muro, a cerca elétrica, o cadeado e tantas outras armas contra o atentado ao bem privado. Agora precisa modificar a consciência das pessoas, principalmente daquelas que, de uma forma ou de outra, acham serem proprietárias da rua, da calçada ou, até, do mundo.





