O povo vai ao shopping porque não tem opção

 

Dia desses, fui caminhar na Pista de Cooper da Avenida Paraná e tive a mesma impressão de dias atrás, quando fui ao Gramadão da Vila A: a população precisa de mais áreas de lazer.

Parece uma conclusão óbvia, eu sei. Mas não creio ser tão óbvio na cabeça dos governos.

Você, nobre leitor, já parou para perceber que os locais com maior concentração de pessoas na cidade são os supermercados e o shopping? Alguns dizem ser pela segurança. Outros, pela comodidade.

São meias-verdades, eu diria.

Na foto, que tirei na Praça da Bíblia, a criançada se divertia nos aparelhos, mesmo com os avisos de “inapropriado para crianças”

Nesses dias de sol, basta visitar o Gramadão e a Avenida Paraná para perceber o quanto os cidadãos estão tentando vencer o medo da violência e ir para a rua.

Levam seus cachorros, seus filhos e seus sorrisos. Caminham, correm, olham ao redor e respiram o ar puro.

Mas ainda é pouco.

Somos cerca de 300 mil iguaçuenses, de nascimento ou de opção, e mais uns 300 mil paraguaios, argentinos e turistas que, todos os finais de semana, escolhem Foz do Iguaçu para passear. E não temos opções saudáveis para toda essa gente.

É necessária uma emergencial distribuição, por toda a cidade, de locais de encontro como gramados, praças arborizadas, parques de diversão (como os antigos, ainda agonizando pela Vila A) e áreas esportivas.

E todos esses locais devem contar com a presença de nossa Guarda-Municipal.

Além disso, devemos controlar melhor a presença dos vendedores ambulantes nesses espaços. Não para coibir o trabalho informal, fruto de um processo histórico de desemprego, mas para ordenar o que é vendido. O Gramadão da Vila A, por exemplo, está cercado de pessoas vendendo bebidas alcoólicas dos mais diversos gêneros. E pior: para menores. Além de comidas do tipo fast-food. Essa ocupação errônea e feita embaixo do nariz das autoridades. Faz dessas áreas, que deveria ser de saúde e lazer, verdadeiras praças de alimentação e bares a céu aberto.

Uma saída é instalar banheiros públicos e bebedouros de água gelada. Além disso, a presença de profissionais de educação física e da cultura para orientar as caminhadas, os alongamentos e as atividades lúdicas de pintura, desenho e brincadeiras.

E as academias públicas recém instaladas? Elas são ótimas, mas precisam de acompanhamento, para que não virem parquinhos para crianças, causando nelas lesões e diminuindo a vida útil dos equipamentos, comprados com dinheiro público. Na foto, que tirei na Praça da Bíblia, a criançada se divertia nos aparelhos, mesmo com os avisos de “inapropriado para crianças”.

Por fim, esses espaços devem ocorrer em todas as regiões e precisam ser atendidos por serviços básicos, como estacionamentos adequados e paradas do transporte coletivo.

Defendo que onde o poder público entra com energia e estrutura, a saúde vigora e a violência passa longe.

Precisamos entender que essa cultura do shopping e do supermercado é terrível para a sociedade e para a saúde pública. As pessoas não convivem a diferença da cidade e confundem lazer com consumo calórico. Disputar espaço no domingo dos cidadãos com os espaços privados é dever do Estado.

Mas, para isso, ele, o Estado, tem que dar condições e estrutura. Afinal, a disputa é acirrada.

 

 


 

 * Luiz Henrique é dramaturgo e um observador da cidade. Siga ele lá no @LuizHDias ou acesse: luizhdias.com.br