Miguel Prieto é destituído da Prefeitura de Ciudad del Este após relatório de intervenção

Cassação foi aprovada nesta terça-feira (12) pela Câmara dos Deputados, com 47 votos a favor. Prefeito enfrentava acusações de corrupção, má gestão e 50 denúncias no Ministério Público.

A Câmara dos Deputados do Paraguai aprovou na tarde desta terça-feira (12) a destituição de Miguel Prieto do cargo de prefeito de Ciudad del Este. A decisão ocorreu em sessão extraordinária, após análise do relatório sobre a intervenção municipal determinada pela Controladoria Geral da República.

Dos 77 parlamentares presentes, 47 votaram pela cassação, 30 foram contrários e três se abstiveram. O resultado confirmou o impeachment de Prieto, que já era tratado como iminente diante da gravidade das acusações. Logo após a votação, o presidente da Câmara, Raúl Latorre, também submeteu os artigos do relatório de intervenção, que foram aprovados na íntegra.

Com a saída definitiva de Prieto, caberá ao Conselho Municipal decidir, em sessão convocada nos próximos dias, quem assumirá o comando da cidade até a realização de novas eleições municipais.

Entenda a intervenção em Ciudad del Este

A destituição de Prieto foi consequência direta da intervenção administrativa iniciada em 23 de junho, quando o interventor Ramón Ramírez Caballero assumiu a prefeitura. A medida tinha duração de 60 a 90 dias e foi autorizada após relatório da Controladoria apontar irregularidades em contratos e uso de recursos.

O documento revelou suposto uso indevido de combustível, desvio de investimentos de capital para despesas correntes superiores a 29 bilhões de guaranis, além da suposta existência de fundos paralelos.

Na ocasião, Miguel Prieto gravou um vídeo pedindo calma à população e orientando que eventuais manifestações fossem realizadas de forma pacífica. “Não queremos uma guerra, queremos paz. Quem for acompanhar, que fique na Junta Municipal, em um local seguro e bem coordenado”, declarou o prefeito à época.

Apesar do apelo, o clima em Ciudad del Este era de forte tensão política. Lideranças da oposição chegaram a denunciar a intervenção como uma manobra do governista Partido Colorado para retomar o controle da segunda maior cidade do Paraguai.

Um outsider que desafiou o Partido Colorado

Nascido em 1989, Miguel Prieto surgiu como uma das figuras políticas mais improváveis do Paraguai recente. Sem vínculos com os grandes partidos, ele iniciou a carreira na vida estudantil e ganhou notoriedade com ações independentes e de forte apelo popular.

Em 2019, surpreendeu o país ao conquistar a prefeitura de Ciudad del Este com uma candidatura avulsa, derrotando os tradicionais caciques locais. Sua vitória foi vista como um marco contra a hegemonia colorada na região, acostumada a décadas de domínio político.

Durante o mandato, Prieto acumulou tanto apoiadores quanto inimigos. Apostou em obras de infraestrutura, programas sociais e modernização da gestão municipal. Porém, enfrentou também críticas por sua postura combativa e por decisões polêmicas, como o afastamento em massa de 60 agentes da Polícia de Trânsito acusados de corrupção.

Ao mesmo tempo, passou a ser alvo de investigações constantes. Somente no Ministério Público, acumulava 50 denúncias — de suposto uso irregular de verbas públicas a questionamentos sobre programas sociais, como a campanha “Navidad Sustentable”.

“Saio pela porta da frente”

Na manhã desta terça-feira (19), antes do início da sessão extraordinária que confirmou sua destituição, o então prefeito de Ciudad del Este, Miguel Prieto Vallejos, fez um pronunciamento na Junta Municipal. Em tom desafiador, afirmou que deixava o cargo “pela porta grande” e que, apesar da decisão da Câmara dos Deputados, sua carreira política permanece viva.

“Há votos e há vontade de me destituir. Da nossa parte, há vontade de suportar o que vier. Estamos de cabeça erguida, felizes e satisfeitos com o que conseguimos como equipe política. Foi suficiente para convencer a maioria da população a continuar acreditando no nosso modelo”, declarou Prieto.

Críticas ao Partido Colorado

O ex-prefeito acusou o oficialismo colorado de ter encomendado um relatório “lapidário” para justificar a intervenção e, posteriormente, sua saída do cargo.

“Procuravam me destituir, procuravam destruir nossa credibilidade e projeção política. A maior conquista do Yo Creo não é impedir a destituição, mas sair pela porta grande, mesmo após uma intervenção. Posso andar pelas ruas e sentir que 90% das pessoas me apoiam”, afirmou.

“Não mancharam o nosso legado”

Prieto reforçou que o processo político não abalou sua base de apoio. “Não conseguiram manchar o nosso legado, não conseguiram destruir o nosso projeto político. Saímos fortalecidos deste processo. Aguentamos uma intervenção e uma destituição, mas não sofremos uma morte política”, disse.

Processos judiciais e desafios futuros

O ex-prefeito reconheceu que ainda enfrenta cerca de 50 processos judiciais, mas garantiu que não irá ceder. “Também não vão conseguir que eu me ajoelhe, como fez Diego Ríos ao filiar-se ao ARN para pedir clemência, caso tenhamos um resultado desfavorável na Justiça.”

Prieto foi além e afirmou estar disposto a enfrentar até mesmo uma prisão. “Se for preciso, serei preso pela democracia. Não tenho medo disso. Alguém tem que parar esses caras, alguém tem que dizer basta”, concluiu.

Destino político incerto

A queda de Miguel Prieto encerra, ao menos por agora, a trajetória de um dos nomes mais populares da oposição paraguaia. Para aliados, sua cassação representa um “golpe político” destinado a enfraquecer uma eventual candidatura presidencial em 2028.

Prieto, por sua vez, ainda não anunciou oficialmente seus próximos passos, mas segue com forte capital político em Ciudad del Este. Resta saber se conseguirá transformar a destituição em narrativa de perseguição e, a partir dela, manter-se relevante no cenário nacional.

Enquanto isso, Ciudad del Este aguarda a escolha de um novo prefeito interino e o desfecho de um processo que expõe, mais uma vez, as tensões entre o governo central e as lideranças locais da fronteira.