Era uma tarde de sol e eu caminhava pela Avenida Paraná, em direção à minha casa
Por lá, via-se o âmbar da luz produzido pelas folhas das copas, levando os passantes – a pé, de carro ou do transporte coletivo – a refletir sobre a intensidade (e a complexidade) do final de tarde, da vida e dos motivos pelos quais vivemos aqui, nesta cidade, neste país e neste planeta.
Quem passeia pela Paraná sabe bem do que estou falando.
Chegando à esquina, quando tudo vira cinza e os carros amedrontam os pedestres, deparei-me com um senhor moreno, de aproximadamente cinquenta anos, produzindo um barulho ensurdecedor com sua “furadeira de concreto”. Ao lado, outros trabalhadores esperando sua hora de participar de toda aquela tormenta sonora. Como observador da cidade, não pude deixar de estancar minha caminhada e ficar ali por alguns instantes, tentando entender o porquê de furarem na esquina.
“Uma placa” – pensei.
“Uma placa para orientar as pessoas do perigo de atravessar fora da faixa”. “Ou”, quem sabe, “um semáforo para pedestres” (isso!), “um belo semáforo para orientar-nos, os passantes, a tomar cuidado com os veículos e ordenar a eles que parem para que possamos passar seguros, em paz”. Confesso, por morar em uma cidade onde a sinalização é feita apenas aos turistas, ter me emocionado com o fato de poder vislumbrar uma cidade mais segura para todos nós.
Foi então que, para afogar minhas doces sensações, os dois outros trabalhadores ergueram aquela estrutura horrorosa de metal, colocaram-na fixa nos buracos e nela parafusaram uma placa de uma escola de idiomas. Ao lado, a de um site de promoções e, do outro lado, a de um anúncio da prefeitura.
“Senhor” – tentei – “para que servem essas placas? Quem o autorizou a coloca-lás?” “Servem para proteger as pessoas. O FozTrans licitou-as”.
Pelo que me consta, as “placas de proteção” foram colocadas nos locais onde há maior fluxo de pessoas, e não maior fluxo de acidentes. Como explicar, senão desta forma, as placas na esquina da Schimmelpfeng com a Marechal Floriano (nunca vi um atropelamento ali) e a falta das placas, por exemplo, na esquina da Almirante Barroso com a Rui Barbosa (onde, nesta segunda, um carro entrou em uma loja de ares-condicionados) sem apelar para fluxo de “consumidores em potencial”?
Enquanto todas as cidades do Brasil estão levando a sério um projeto de despoluição visual, Foz do Iguaçu, nossa cidade, nossa querida cidade, autoriza a ocupação do espaço público para fins privados. Mais uma vez, como acontece no transporte coletivo, vemos os interesses de empresários à frente dos interesses sociais e, cada vez mais, perdemos nosso direito à cidade.
Já não bastam os terrenos baldios – vazios urbanos, latifúndios centrais ou espalhados por toda a cidade, subutilizados -, onde poderíamos ter pessoas morando, termos apenas outdoors? Se a gente olha para cima: placas. Se a gente olha para frente: placas.
Terminada a instalação, eu fui para casa. Fui me trancar em casa. Talvez seja o que nos resta.
Só tomei o cuidado de ir olhando para o chão, pois, pelo menos, o FozTrans ainda não autorizou colocarem propagandas no asfalto e nas calçadas. Por enquanto…

Luiz Henrique Dias é dramaturgo. Ele reclama de tudo todas as quartas aqui no Click. Sigam ele lá: @LuizHDias




