Caro leitor, terça-feira, 22h47, sento eu em um agradável bar da cidade para escrever esta coluna. Confesso, estava disposto a falar um pouco sobre a cultura da cidade e alguns de seus mais nefastos representantes, mas vou deixar essas revelações bombásticas para semana que vem. Tudo porque, ao abrir minha caixa de e-mails, agora, me deparei com uma mensagem no mínimo preocupante. Principalmente partindo do pressuposto de que, se for verdade o que é apresentado na mensagem, é preciso que prefeitura, IAP e outros órgãos se expliquem à cidade e aos cidadãos. Segue, abaixo, na íntegra, a denúncia:
Projeto de Recuperação da Microbacia do Córrego Águas Claras e Ação Ambiental Conjunta à Campanha da Fraternidade – Região da Vila Yolanda
Em Foz do Iguaçu, temos um córrego, pequeno, mas muito especial, cujo nome infelizmente já não condiz com sua realidade: Águas Claras.
Ele tem suas nascentes na região bem próxima à Churrascaria Rafain e ao Colégio Estadual Tarquínio Santos, na Vila Yolanda. Suas águas nascem em pleno corredor turístico da terra das Cataratas e deságuam no Rio M’Boicy, compondo importante microbacia na região central da cidade.
Depois, suas águas, já não tão claras assim, seguem rumo ao Rio Paraná. Há alguns anos, são realizadas pesquisas acadêmicas com o projeto acadêmico “Complexo Águas Claras” do curso de engenharia ambiental da UDC, e desde 2010, ações de sensibilização vem aumentando em intensidade e em parcerias, em prol da preservação deste córrego.
Em 2010 o projeto foi compartilhado com os integrantes do Multicurso Água Boa, um programa de formação continuada elaborado pela Fundação Roberto Marinho, numa parceria com a Itaipu Binacional com o objetivo de formar pessoas que atuem como gestores de bacias hidrográficas a partir dos princípios da responsabilidade socioambiental e da sustentabilidade. A partir do Multicurso Água Boa, o projeto “Complexo Águas Claras” foi aprimorado por técnicos, professores e lideranças e novas ações foram propostas, especialmente em relação à mobilização da comunidade da microbacia, das escolas e outras entidades públicas e privadas da região.
No início desse ano, este grupo formou uma forte aliança com a Campanha da Fraternidade, promovida pela comunidade da Vila Yolanda, para somar esforços. Assim, foi criado um comitê gestor para planejar ações de superação dos problemas ambientais levantados pela comunidade, surgindo a proposta de campanha ambiental para evitar a proliferação do mosquito da dengue e que o lixo fosse parar no córrego
A Campanha Bota-Fora foi realizada em seis bairros daquela região, nos dias 28 e 29 de maio, num esforço conjunto entre comunidade, poder público, associação de catadores e empresas parceiras, onde foram recolhidos materiais recicláveis, óleo de cozinha, lixo eletrônico e entulho de construção. As próximas ações do projeto visam à recuperação das nascentes e da mata ciliar com o plantio de mudas nativas, para tanto, inúmeras reuniões já articularam pessoas que apóiam o projeto.
Infelizmente, a especulação imobiliária, (devido aos interesses privados e não coletivos) está transformando o sonho da recuperação em tristeza e indignação aos que conhecem as belezas naturais e importância do córrego. Trata-se de uma atitude enquadrada como crime ambiental. No final de semana do dia 13 de agosto, a lagoa que se formava na região alagadiça que a geografia do local criou no curso do córrego, foi dragada, esvaziada. Na semana seguinte, dezenas de caçambas com entulho foram depositadas no local que, perante lei federal é Área de Preservação Permanente.
O problema é delicado e complexo.
Perante o Instituto Ambiental do Paraná – IAP, o proprietário foi contemplado com autorização da construção de um condomínio na área de proteção ambiental. Cabe agora à comunidade, à promotoria pública e a quem mais interessar questionarem os fatos e refletirem sobre o que vale mais à pena, a predominância do interesse econômico particular? Ou a defesa do bem comum?
Em tempos de evidente necessidade de se preservar a água, bem público e essencial à vida, e o meio ambiente de forma geral, para evitarmos uma calamidade no futuro próximo, em relação à saúde dos seres humanos, seres vivos e do planeta.
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Amigo leitor, mediante a gravidade da denúncia e do aparente descaso com a própria Legislação Federal, fica a dúvida sobre se há certa ingenuidade por parte das autoridades que expedem tais licenças ou se há interesses – maiores, obscuros – por trás de tudo isso.
Somos uma cidade reconhecida mundialmente por suas belezas naturais e por seu povo hospitaleiro e plural. Fatos como o relatado nos levam a crer, no entanto, que algo de errado pode estar acontecendo embaixo de nossos próprios narizes.
E só aceita quem é conivente com a patifaria.

* Luiz Henrique Dias é dramaturgo, diretor da Cia Experiencial O Teatro do Excluído e colunista do ClickFoz. Siga ele lá: @LuizHDias



