Eu estava, dia desses, em Porto Alegre, numa roda de amigos – alguns também estudantes de Arquitetura e Urbanismo -, gabando-me das calçadas de Foz.
Mas a realidade é outra.
O projeto calçadas, inicialmente uma parceria da prefeitura com a faculdade de Arquitetura local, parecia ser a solução para os problemas de acessibilidade, paisagismo e permeabilidade do solo urbano. A proposta era padronizar a cidade, permitindo que “um deficiente visual, por exemplo, circule por todo o centro e por boa parte do perímetro urbano”. Era um sonho urbanístico e, como todo sonho, acabou quando acordamos para a realidade.
Pouco mudou.
Quem regularizou as calçadas, o fez com medo da multa. Poucos se sentiram civilmente obrigados a ajudar o próximo e, muitos desses, desistiram no primeiro orçamento.
A padronização virou um mercado promíscuo, no qual a indicação desta ou daquela empresa para executar o serviço sai de dentro da própria prefeitura. O medo da multa levou centenas de proprietários a fazer obras sem critério, resultando em uma descontinuidade absurda, mesmo entre calçadas de imóveis vizinhos. Além disso, os aclives e declives não foram respeitados, as faixas táteis mal conectadas e boa parte dos proprietários de imóveis, principalmente do centro, fingiram que “não era com eles” e deixaram suas calçadas inacessíveis.
Além disso, as calçadas do centro não encontram o respeito dos cidadãos – muitos não entendem a utilidade – e absurdos são vistos.
Nas esquinas da Santos Dumont com as ruas Bartolomeu de Gusmão e Jorge Sanwais (ironicamente próximas à faculdade de onde saiu parte do projeto), as calçadas adaptadas passam boa parte do dia tapadas de mesas onde podemos ver, inclusive, estudantes de Arquitetura deliciando-se com geladas cervejas e cadeirantes obrigados a passar pela rua.
Sem o exemplo da área central, pouco foi feito nos bairros.
Na foto abaixo, tirada no Parque Presidente, há menos de 300 metros do Terminal Rodoviário, um PNE (Portador de Necessidades Especiais) não tem nem calçada para circular e, com chuva, se vê obrigado a trafegar pela faixa de rolagem.

As pessoas só adaptam suas calçadas quando a prefeitura ameaça e, como essa só ameaça de vez em quando, o projeto segue a passos lentos.
Enquanto isso, a gente fica por aí se gabando que, em Foz, as ideias são avançadas, mas a prática mostra mais a preguiça dos agentes públicos e cidadãos do que resultados. E aí, quem precisa de uma cidade acessível para se locomover, tem de esperar sentado, na cadeira de rodas.





