“Cancelaram?”. “Sim”. “Mas como?”. “Cancelando”. “Mas eu me programei para dar aula lá, liguei durante a semana, estava tudo certo…”. “Bom, se quiser, pode pegar um ônibus até Cascavel, esperar duas horas e, depois, pegar um conexão para Pato Branco.” – e foi aí, assim, que tudo começou.
Caro leitor, a história que venho contar é grave.
E hoje vou sair (um pouco) dos limites de nossa cidade e viajar pela região.
Na verdade, o fato narrado ocorreu neste final de semana, quando, saindo de Foz do Iguaçu em direção à Pato Branco, para dar aulas no Núcleo de Dramaturgia, fui surpreendido por um serviço de transporte intermunicipal desumano, vergonhoso e, acima de tudo, discrepante do preço cobrado.
Tudo começa na Rodoviária de Foz (péssima, por sinal).
Uma das empresas que faz a linha de Foz à Pato Branco simplesmente cancelou um horário e, devido a isso, fui obrigado a viajar até Cascavel, pois não teria outra opção para chegar a tempo em meu destino.
Chegar a Cascavel foi, no entanto, já um sofrimento. Ficamos parados por quarenta minutos no posto da PRF, em Santa Terezinha, onde foi feita uma revista completa no ônibus e todos, todos, tiveram de mostrar documentos, abrir as malas e apresentar notas fiscais dos aparelhos que transportavam. Dez quilômetros depois, no pedágio, outra varredura, desta vez do Exército, e mais trinta minutos parados. Por sorte, em outro posto do PRF, em Céu Azul, apesar de novamente passarmos por uma revista, esta durou somente dez minutos.
Com essa história, quase perdi a conexão.
Em Cascavel, troquei de ônibus e de empresa. Foi aí que eu vi o quanto aquela viagem estaria apenas começando: era um veículo velho, sujo, sem banheiro (apesar de ser uma viagem de quase seis horas), sem porta dividindo a cabine do motorista e o espaço dos passageiros. O motorista, um tanto quanto mal-educado, fez questão de abandonar na Rodoviária um rapaz que chegou atrasado e, simplesmente, não pôde embarcar, mesmo com o ônibus ficando mais quinze minutos ali no pátio da rodoviária.
A maioria das poltronas não reclinava, estava quebrada. Algumas, afundadas. Havia lixo. Não tínhamos cinto de segurança e o veículo não continha sequer os famosos adesivos da ANTT ou do DER com os números para reclamação.
O motorista, por algumas vezes, falou ao celular (veja as foto) durante o trajeto.
| Repare no retrovisor, motorista ao celular enquanto dirige |
| E agora, ao celular novamente realizando uma manobra |
Nas paradas, que eram várias, o passageiro que descesse para ir ao banheiro era ameaçado de ficar por ali.
As pessoas tentaram reclamar do serviço, mas eram tratadas com descaso. Eu mesmo conversei com um fiscal da empresa sobre os banheiros, pois, nas paradas, era necessário pagar para utilizá-los, e ele me disse: “basta mostrar a passagem e você não paga”. Tentamos fazer isso e recebemos risadas dos funcionários das rodoviárias.
O motorista era péssimo: corria, buzinava o tempo todo. Xingava. Um horror.
A viagem começou às 11h e durou até as 17h. Mesmo assim, não houve parada para almoço ou lanche, mas infinitos foram os embarques e desembarques. Em uma rodoviária, para piorar, desembaracaram rodas (isso mesmo, rodas!) que estavam sendo carregadas pelo bagageiro e que, arrastadas por ele durante a viagem, fizeram tanto barulho que assustaram todos os desavisados.
Ao final da jornada, na qual saí de Foz do Iguaçu às 07h e cheguei em Pato Branco às 17h, tive que ouvir, ainda, uma passageira dizer: “não sei como esse motorista ainda está na linha. Há anos ele faz essas coisas. É famoso já.”, e desci do ônibus com dores, estressado e, principalmente, chateado.
Chateado por pensar ser este serviço, o de transporte intermunicipal, uma concessão pública. Essas empresas, exceto em itinerários nos quais o avião tem ganhado mercado, tratam o passageiro como querem, pois sabem estarem isentas de concorrência e sujeitas a uma fiscalização que, com base no estado do veículo utilizado na relatada viagem, não funciona.
Somando excesso de paradas para “pente-fino”, BR 277 sem duplicação, péssima condição da Rodovia que liga Cascavel a Pato Branco, ônibus velho, pessoal mal-treinado, atendimento ruim nas rodoviárias, uma viagem que poderia durar pouco menos de seis horas tornou-se interminável e quem mais sofreu foram pessoas que só queriam voltar para casa ou ir trabalhar.

* Luiz Henrique Dias é diretor da Cia Experiencial O Teatro do Excluído. Acesse luizhenriquedias.com.br ou siga ele lá: @LuizHDias
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