Há alguns dias, o Governo Federal anunciou mais uma medida de fomento ao consumo e combate à crise: a redução do IPI (imposto sobre produtos industrializados) de alguns bens de consumo, dentre eles máquinas industriais, linha branca e carros. Dispensando aqui a análise – econômica – se as medidas são corretas ou não, o fato é que, no primeiro final de semana após o anúncio do pacote de incentivos, a procura por carros novos aumentou consideravelmente e as montadoras estimam normalizar os estoques – acumulados – em 60 dias.
Em minha aula, no Pré-vestibular Comunitário da Unila, sábado, fui questionado por um estudante sobre os possíveis impactos ambientais dessas medidas, principalmente nos quesitos poluição visual, sonora e do ar e fui taxativo ao dizer “O Brasil precisa crescer e essa é a prioridade agora”. Prontamente, outro estudante, no calor do debate, disse “não precisamos de mais carros, precisamos de ciclovias”. Concordei, naquele instante, mas faço aqui uma ponderação e, em seguida, emito minha humilde opinião:
Pergunto: quem vai utilizar as ciclovias?
Começo imaginando um cenário ideal, em que Foz constrói um grande número de ciclovias, das mais diversas formas (sobre canteiros, laterais, ciclofaixas). Haverá, pois, demanda? As pessoas deixaram o carro em casa para ir ao trabalho de bicicleta?
Pergunto: a cidade está preparada para ter ciclovias?
Houve no planejamento de Foz uma previsão para essas intervenções? Há uma consciência da importância da bicicleta e respeito por parte dos motoristas?
Agora veja: antes que alguém ache que sou contrário às ciclovias, respondo, prontamente que não.
Sou totalmente favorável e faria o possível para utilizar a bicicleta, caso a cidade contasse com um Sistema de Ciclovias eficiente e seguro.
O que não podemos é cair no discurso vazio, na luta por nada. Vez em quando aparece algum político dizendo que vai fazer uma via para bicicletas. Uma ciclovia isolada. No lugar “x” ou no parque “y”. E isso não adianta. Ciclovia isolada não é ciclovia, é parquinho de final de semana para a classe média. Ciclovia isolada, sem conexão às vias, não ajuda a desafogar o transporte, o trânsito, não tira carros da rua. É pura maquiagem.
Então, como deveria ser?
* Foz do Iguaçu precisa de um Sistema Integrado de Ciclovias. Ele deve ligar pontos distantes da cidade através de ciclofaixas nas ruas em espaços reservados em calçadas e canteiros.
* Elas – as ciclovias – devem dar opção ao trabalhador, ao morador e ao turista, passando tanto por bairros de periferia, como pelos bosques e áreas verdes e chegando até os pontos turísticos, como o Parque Nacional do Iguaçu, Itaipu e Marco das Três Fronteiras.
* Nos pontos onde não houver possibilidade de continuação do trajeto em duas rodas, conexão com o transporte coletivo – transporte de verdade, não com esse lixo de transporte que temos hoje – para que o ciclista possa fazer um trecho de relevo mais acidentado de ônibus e, após, continuar sua pedalada.
* As ciclovias devem prever pontos de parada, com água, área de descanso e presença do Estado – policiamento, quiosques de serviços e locação de bicicletas, etc.
* Devemos pensar mais além: veículos de tração humana. Incluir nesta conta (e no planejamento/concepção) skates, longs, patins, etc.
* A construção do Sistema deve ser paralela com campanhas de conscientização do motorista quanto à importância do convívio com os ciclistas e criação de leis específicas contra infratores.
Dessa forma, o cidadão, comprando um carro novo com a baixa do IPI ou não, tendo um carro na garagem ou não, vai poder optar por utilizar as ciclovias. Eu não tenho carro e não vejo problema algum nisso. Da mesma forma, não vejo problema em ter. Ser contra os carros e a venda deles é demagógico demais. O que devemos é dar condições para que o cidadão possa optar por, em determinados dias, utilizar o carro ou não. Para isso, precisamos sim das ciclovias e melhorar – muito – o transporte coletivo. O resto, a população faz.

* Luiz Henrique Dias é encenador da Cia Experiencial O Teatro do Excluído. Leia mais em www.luizhenriquedias.com.br.
A opinião emitida nesta coluna não representa necessariamente o posicionamento deste veículo de comunicação

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