Sebastião Salgado morre aos 81 anos em Paris; legado do fotógrafo transformou a forma de ver o mundo

Criador de imagens icônicas e defensor da restauração ambiental, Salgado visitou Foz do Iguaçu em 2014 e deixou marcas também na Tríplice Fronteira.
Sebastião Salgado. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

O fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado morreu nesta quinta-feira (23), aos 81 anos, em Paris, onde vivia desde o fim da década de 1960. A informação foi confirmada pelo Instituto Terra, organização fundada por ele e sua esposa, a arquiteta e curadora Lélia Deluiz Wanick Salgado.

“Sebastião foi muito mais do que um dos maiores fotógrafos de nosso tempo. Ao lado de sua companheira de vida, semeou esperança onde havia devastação e fez florescer a ideia de que a restauração ambiental é também um gesto profundo de amor pela humanidade. Sua lente revelou o mundo e suas contradições; sua vida, o poder da ação transformadora”, afirmou o Instituto em nota oficial.

Uma lente que expôs o mundo

Salgado se consagrou como um dos maiores nomes do fotojornalismo mundial. Seu estilo marcante, com imagens em preto e branco, capturava com precisão estética e sensibilidade as dores, as belezas e as contradições da humanidade.

Ao longo de décadas, viajou por diversos continentes para registrar paisagens remotas, povos originários, populações marginalizadas e a dignidade humana em meio à adversidade. Documentou também condições de trabalho extremas, deslocamentos em massa provocados por guerras e crises humanitárias, e culturas ameaçadas pela modernização acelerada.

Raízes em Minas, exílio em Paris

Sebastião Ribeiro Salgado Júnior nasceu em 1944, no vilarejo de Conceição do Capim, distrito do município de Aimorés (MG), no Vale do Rio Doce. Em 1969, diante do endurecimento do regime militar brasileiro, ele e Lélia decidiram se exilar na França, onde ele consolidaria sua carreira.

Antes da fotografia, Salgado formou-se em economia pela Universidade de São Paulo (USP) e concluiu doutorado na Université de Paris. Trabalhou como economista na Organização Internacional do Café, em Londres, até 1973, quando decidiu dedicar-se integralmente à fotografia.

Iniciou na agência Sygma, em 1974. No ano seguinte, transferiu-se para a agência Gamma, onde produziu sua primeira grande série documental sobre camponeses e indígenas na América Latina. Em 1979, ingressou na Magnum Photos, que chegou a presidir, permanecendo até 1994, quando fundou, ao lado da esposa, a agência Amazonas Imagens.

Passagem por Foz do Iguaçu: imagens, memórias e raízes plantadas

Sebastião Salgado esteve em Foz do Iguaçu em 6 de junho de 2014 para a abertura da exposição “Trabalhadores”, no Ecomuseu de Itaipu. O fotógrafo fez questão de visitar a montagem da mostra pela manhã, antes da cerimônia oficial, e se emocionou ao rever as imagens expostas — 132 ao todo, reunidas após mais de uma década.

O fotógrafo Sebastião Salgado na abertura da exposição, no Ecomuseu da Itaipu. Foto: Adenésio Zanella/Divulgação Itaipu Binacional.

A mostra retratava profissões em extinção ao redor do mundo, registradas por Salgado entre 1986 e 1992, em dezenas de países. As fotos deram origem ao livro Trabalhadores e foram publicadas em mais de 29 reportagens internacionais. “Quis fazer uma espécie de arqueologia, uma homenagem a um tipo de trabalho que não se encontra mais em lugar nenhum”, declarou o fotógrafo na ocasião.

Essa não foi a primeira vez que Salgado esteve na Tríplice Fronteira. Em 1980, ele passou alguns meses documentando as obras de construção da usina de Itaipu. Em 2014, ao retornar à cidade, ele e Lélia plantaram uma pitangueira no Bosque dos Visitantes da usina, simbolizando a parceria entre Itaipu e a instituição ambiental criada pelo casal.

Sebastião e sua esposa, Lélia Salgado, plantaram juntos uma árvore no Bosque dos Visitantes. Foto: Divulgação Itaipu Binacional.

A exposição ficou em cartaz até 5 de outubro daquele ano e fez parte das comemorações dos 40 anos de Itaipu e dos 100 anos de Foz do Iguaçu.

Prêmios e reconhecimento internacional

Ao longo da carreira, Salgado recebeu diversos prêmios de prestígio no fotojornalismo e na fotografia documental. Em 1982, foi contemplado com o Prêmio Eugene Smith (EUA), seguido pelo World Press Photo (Holanda) e o Oscar Barnack (Alemanha), ambos em 1985. Também venceu o Prêmio Hasselblad (Suécia, 1989) e o de Fotojornalismo do International Center of Photography (EUA, 1990).

Foi nomeado representante especial da Unicef e tornou-se membro honorário da Academia das Artes e Ciências dos Estados Unidos.

Seu trabalho é imortalizado em livros como Sahel: L’Homme en détresse (1986), Outras Américas (1986), Workers (1993), Êxodos (2000), Serra Pelada (1999), África (2007), entre muitos outros. Seu olhar ganhou ainda mais alcance com o documentário O Sal da Terra, que acompanha sua trajetória e foi indicado ao Oscar.

Em abril de 2023, 15 quadros de Salgado avaliados em quase R$ 1 milhão foram reincorporados ao patrimônio da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai). Em agosto do mesmo ano, a mostra Trabalhadores voltou ao circuito, com 150 fotografias do artista.

Um olhar que permanece

Sebastião Salgado construiu um legado que vai muito além das imagens. Ele revelou o invisível, deu voz aos silenciados e plantou florestas onde havia deserto. Sua obra permanece como testemunho de uma época e convite à empatia — um legado visual e ético que continuará inspirando gerações.

Com Informações: Agência Brasil
Fotos: Adenésio Zanella/Itaipu Binacional e Valter Campanato/Agência Brasil