Alguns dias atrás, durante uma aula cujo assunto principal era “Qualidade de vida”, perguntei à turma de adolescentes, o que lhe vinha à mente quando ouviam falar em cultura.
O que é cultura?
Um deles, com a expressão cheia de dúvidas, disse: “índios”. Então eu perguntei por quê? Ele respondeu: “Ah! Por causa do jeitão deles, as músicas, as danças, a dança da chuva que dizem que eles têm lá”. Prossegui, instigando-o a falar sobre si e sua família, seus hábitos alimentares, preferências musicais, danças, leituras. E ele, estático, não respondeu nada por um momento, depois, como se acabasse de se lembrar, disse que ouvia Guns N’ Roses e gostava muito de lasanha.
E do Brasil? O que você ouve?
“Ah! Eu não gosto dessas músicas daqui do Brasil não, aqui só tem esse povo de calça colorida e o sertanejo universitário”.
Bem, foi uma longa conversa que me mostrou que para o jovem de 16 anos, a referência de cultura nacional foi construída e se alimenta somente do que está mais acessível.
Quando digo acessível, pode-se pensar que hoje em dia tudo está tão acessível, bastam alguns cliques, mas não é a essa acessibilidade que me refiro. Nossa poesia e nossa voz brasileira existentes em nossa música, nossa literatura, nossa dança, nossa comida, etc, não fazem parte dos 16 anos desse adolescente por muitos motivos, como por exemplo, nas vitrines, lê-se “50% off”, no cinema, o campeão de bilheteria é “O homem aranha”, a fome bate e o carrinho de lanches mais próximo é o do X burguer, as casas de shows da cidade promovem o sucesso do momento que é inspirado no outro país, nas escolas professores montam coreografias com base no DVD daquela pop star.
Quero deixar claro que não sou xenofóbica, mas minha preocupação é por saber que falta a esse jovem o sentimento de pertença, falta-lhe identidade cultural. E é esse jovem que irá votar nas próximas eleições, de acordo com as promessas relacionadas aos seus direitos à saúde, emprego, educação e segurança. Ele não sabe que tem direito à cultura, e assim não votará por ele, pois não conhece sua cultura. Tão jovem e já carrega as sequelas da violência tamanha que sofre diariamente.
E o que é pior, sem se dar conta disso.

*Claudia Ribeiro é atriz, contadora de história, produtora, dramaturga e professora.

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