Saudoso leitor me chama no Facebook para relatar um fato: um morador de rua foi até a porta de uma padaria 24 horas pedir pão e, não sendo atendido pelos funcionários (pois a casa tem normas claras quanto este tipo de doação), jogou uma cadeira contra o vidro e causou um tumulto generalizado. Acabou preso e solto logo depois, voltando a “frequentar” o local novamente.
Confesso ter achado um horror o acontecido. No momento fiquei com vontade de ir lá e tacar uma pedra no marginal ou vê-lo preso para sempre! Pense no pânico das pessoas, que estavam lá, naquela hora, jantando, em ver um vidro estilhaçar bem em sua frente.
Mas eu acho importante fazermos uma análise um pouco mais cuidadosa do tema.
Eu não sou assistente social. Mas não é preciso ser um para perceber o número de moradores de rua (ou frequentadores “indesejados” de nossa “cidade turística”) espalhados pela cidade e para notar que, nos últimos anos, esse número cresceu exponencialmente.
Eles estão por absolutamente todo o centro e já são classificados pela população como “dóceis” ou “violentos”. Ouço por aí coisas do tipo: “Na porta do meu prédio dorme um desses mais “bonzinhos”, mas, na esquina, tem sempre um “bravo”.”
E assim vivemos: classificando quem a vida não deu oportunidades.
A tese de que todos são vagabundos, bandidos e que não gostam de trabalhar cai por terra quando se analisa de forma mais profunda a sociedade. Os moradores de rua, em sua grande maioria, são pessoas com problemas sérios, não só financeiros. Incluem-se aí usuários de drogas, alcoólatras, esquizofrênicos e muitas pessoas que chegaram ali, nesta condição, por uma série de fatores, todos, eu disse todos, exceto talvez os patológicos, frutos dessa sociedade criada por nós mesmos (e por eles) para nós mesmos (e para eles).
Vivemos em um mundo de consumo e da apologia ao consumo. Se você consome e eu não, e eu não tenho oportunidade de ter igual a você, eu vou te roubar para ter ou ser violento. É simples assim, mas não é simples para nós, que vemos pelo outro lado, sempre.
O problema das pessoas (e é o meu também) é de sempre analisarmos o fato presente “ele me agrediu” e nunca pensamos no fato histórico “ele é fruto de um sistema”, até porque, quando paramos para fazer esta análise, é porque fomos vítimas. Geralmente não pensamos no tema sem termos sido a vítima ou termos uma vítima próxima. Eu não escreveria este texto se um leitor não houvesse me contado o ocorrido ou se eu não tivesse sido assaltado por um morador de rua.
E precisamos lembrar que miséria não é sinônimo de bandidagem. Há, inclusive, “bons filhos de família”, de classe média ou alta, com “casa, estudo e educação” cometendo, diariamente, atrocidades piores, muito piores. E a sociedade os chama, no máximo, de “mimados”. O termo bandido não serve para filho de rico.
Vivemos nossa individualidade mesquinha, tacanha e rasa. E isso é porque somos ruins? Uns monstros? Não, claro que não. Somos apenas o fruto de uma sociedade que divide o mundo sempre em dois lados: os que consomem e os que não consomem, os que têm e os que não têm, os que moram na rua e os que não moram, os que prestam e os que não prestam. Uma constante luta entre bem e mal, certo e errado, inocente e culpado.
E, enquanto estivermos do lado de cá, o lado de lá que se dane.





