Meio-dia. Avenida Jorge Schimmelpfeng, esquina com Marechal Deodoro. Sigo ao ponto de ônibus. A ideia: chegar ao aeroporto de Foz. Confiro no celular a temperatura. 25 graus. Calor, portanto. Levo apenas uma mochila e um jornal. Encontro, indo, talvez, na mesma direção, dois turistas. Acompanho-os e foi nessa hora que eu entendi o porquê de nossa cidade não estar pronta para receber visitantes e, principalmente, para atender seus cidadãos.
Dia desses falamos do aeroporto de Foz. Uma catástrofe. É daqui, inclusive, do aeroporto, da sala de embarque apertada e remendada, num nicho de mesas improvisado e feito com todos os pecados do conforto ambiental (frente com o sol do meio-dia), que escrevo esta coluna. Mas não vou, prezado leitor que nos acompanha nessa luta por uma cidade melhor, novamente, falar da estrutura do terminal de passageiros de Foz do Iguaçu.
Vou, hoje, comentar sobre o desrespeito com quem tenta chegar aqui, seja para trabalhar, seja para viajar.
Meu pai me ofereceu uma carona (não tenho carro), mas prefiro, sempre, utilizar os serviços da cidade. Optei pelo ônibus. Fui até o site da prefeitura e imprimi o horário. Feliz por poder utilizar aquilo que é público (ou licitado para servir a tal fim) e tirar, pelo menos daquela rota, um carro.
No ponto, em frente ao antigo teatro que, depois de academia de boxe, virou igreja, cerca de trinta pessoas (trabalhadores, cidadãos, turistas, estudantes) se espremiam na única sombra do local, especialmente projetado para cozinhar quem está por ali.
O ônibus, segundo o horário do FozTrans, já havia saído do Terminal há quinze minutos (bastante, né?) e nós, passageiros, munidos de R$ 2,40 ou de cartão Único, esperávamos, impacientes, sua vinda.
Ali no ponto não havia banco (só umas barras de metal aquecido), nem lixeira (quebrada), nem qualquer tipo de sinalização de orientação ou segurança, como há em cidades turísticas que respeitam as pessoas. As faixas de pedestres que davam acesso ao local estavam apagadas e o trânsito ficava caótico sempre que algum ônibus resolvia parar para pegar ou deixar passageiros.
Vinte minutos depois do informado, chegou o tão esperado ônibus.
Já veio lotado. Novidade, né?
Nós entramos e, em seguida, os turistas foram se espremendo, até que coube todo mundo lá dentro.
Era um ônibus antigo, daqueles que só foram pintados de verde pelo “novo transporte de Foz”.
Dois rapazes – creio que europeus – tentaram pedir algumas informações para o motorista que, obviamente, não falava inglês. O cobrador, igualmente.
Ouvi dizer que, em cidades turísticas pelo mundo – pelo Brasil, inclusive -, os prestadores de serviços do gênero falam, pelo menos, inglês.
Como os rapazes conseguiram falar “Argentina”, o motorista disse “ah tá” e eles foram deixados em um local, que presumo ser, na cabeça do motorista e do engenheiro que projetou o “novo transporte”, um ponto.
Faço uma pausa para lembrar: aqui em Foz, os pontos são identificados ou por “casinhas” ou por “matinhos”. Aquele era de “matinho”.
O veículo parou e os dois quase foram jogados para fora.
Ficaram ali, no sol, esperando, quem sabe, um outro ônibus.
Seguimos viagem.
No caminho, muito calor. Os passageiros do lado esquerdo (do sol) que o digam. A ordem de preferência era: banco da direita, em pé amontoado à direita, sentado na escada e, por último, sentado à esquerda. Alguns tentavam abrir as janelas. Um homem, num salto, abriu a saída de ar no teto. Seríamos porcos sendo transportados para o abate se não houvesse a sutil diferença de termos pago para estar ali.
Quase vinte minutos depois, chegamos ao aeroporto. Lá, a gente desce onde dá. Tem, sim, um ponto, imaginário, mas não se sabe bem onde fica.
Há muitos outros erros na linha que leva ao aeroporto: falta catraca adaptada à passagem de malas, os ônibus não têm acessibilidade, o rebaixamento do acesso não existe, o motorista e o cobrador precisam de um treinamento para atender bem a todos e falta comunicação visual adequada (quando o ônibus chega, os passageiros que esperam para embarcar na linha Aeroporto não sabem se aquele ônibus vai para o Centro ou para o Parque Nacional).
Sem falar que aproveitar a mesma linha para fazer Aeroporto e Parque Nacional é de uma cara-de-pau só vista em Foz do Iguaçu.
O resultado disso, mais uma vez, é a falta de vontade dos cidadãos em quererem utilizar os serviços públicos. Uma moça, dentro do ônibus, disse: “sorte de quem tem carro”.
Ouvir isso é péssimo, pois, cada vez mais, a cidade se abarrota de veículos que transportam, no máximo, cinco pessoas e que, geralmente, só tem levado uma. E quem não tem carro só sai de casa para trabalhar.
Passear de ônibus só se for para passar raiva.
E um dia, em uma audiência pública, o dono da mesma empresa que faz a linha Aeroporto alegou que trabalha no vermelho e, a cada ano, o transporte de Foz perde passageiros. Perguntamos a ele, na época, se não seriam as próprias empresas o culpado. Ouvimos apenas o silêncio.
É preciso rever, urgentemente, a concessão do transporte de Foz. Já apresentamos aqui, nesta coluna, inúmeras situações graves. Ou é público de verdade ou tem-se serviços de qualidade com uma fiscalização real.
Para terminar, caro leitor, liguei no telefone da empresa responsável, colado em um adesivo dentro do ônibus, para pedir explicação pelo atraso na linha. Quem atendeu disse não saber de atraso e falou que meu relógio deveria estar adiantado. Depois, pegou meu número e ficou de fazer contato. Não contente, tentei ligar no FozTrans. Duas vezes. Ninguém atendeu.
Mais uma vez, a cidade nos decepciona.

* Luiz Henrique Dias é diretor da Cia Experiencial O Teatro do Excluído. Leia mais em luizhenriquedias.com.br ou siga ele: @LuizHDias.



