Soltar os bichos

Estive, semana passada, num show de rock com bandas da cidade e uma de fora, sendo esta, inclusive, como os roqueiros dizem, “das antigas” e tem, como estilo, o punk rock. Para quem não sabe, este é um movimento musical e cultural que surgiu em meados da década de 1970. Tem como principais características músicas rápidas e agressivas com temas que abordam desde idéias anarquistas, niilistas e revolucionárias, até problemas políticos e sociais como o desemprego, a guerra e a violência.

Há muito que frequento shows de rock, mas nunca havia prestado atenção e nem feito uma leitura psicológica da função da roda punk como nesse último show. Antonio Bivar, no livro O que é punk, descreve a roda punk que, na verdade chama-se “roda de pogo” (pronuncia-se pôgo). Ela se forma ali, na frente do palco. Pode ser pequena ou imensa, dependendo do número de integrantes dispostos. Geralmente há apenas uma. O resto do público, que não quer participar, se acomoda ao redor da roda, levando até alguns chutes e cotoveladas de vez em quando. Isto faz parte da “dança”. No intervalo das músicas a roda pára e todos descansam. É comum ver então abraços entre amigos, sorrisos e gritos, típico de quem está se divertindo bastante.

É comum também ver sorrisos no meio da roda em plena efervescência. O chutar e ser chutado, sem intenção de machucar, faz parte do jogo e todos fazem isso com alegria e se alguém tropeça e cai, logo é levantado por outros companheiros da roda. É muito interessante. Passam, sim, a impressão de que estão se agredindo e que ninguém sairá vivo dali, mas não é nada disso. Ao se expressarem dessa forma, mostram a liberação de uma agressividade de mil maneiras reprimida. É realmente uma terapia para quem participa, por mais que admitam sair com dores musculares e com hematomas. Desgrenhados e roucos, garantem terem extravasado. Exaustos, mas leves.

Ao contrário do que muita gente imagina, não há briga. É muito raro isso acontecer. A agressividade que todos colocam pra fora não é contra ninguém. Só precisam se divertir e é daquela maneira. Assemelham-se com os que frequentam os estádios de futebol que também berram, xingam e pulam.

O ser humano precisa disso de vez em quando. A maioria sente-se mais segura quando o faz coletivamente. Portanto, se quiser experimentar essa sensação, vá a um show de rock. Aqui em Foz isto acontece esporadicamente. Talvez você não precise entrar numa roda punk, mas dê seus pulos. Permita-se! Dê seus gritos e solte os bichos. Você consegue, ou se preferir, pode optar por outro tipo de terapia. O importante é, depois disso, sentir-se bem.

 

 


 
 

 

 

 

*Claudia Ribeiro é  atriz, contadora de história, produtora, dramaturga e professora.

 

 

 

 

 

 

 

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